Três “badasses” de quadrinhos que são parte do problema

Se tem uma coisa que faz muito sucesso em quadrinhos, e felizmente não tem um respaldo tão grande na vida real, são vigilantes durões e “sem piedade”. Enquanto no mundo das HQs a ação deles acaba com o crime, no mundo real vigilantismo tem consequências trágicas… Mas será que mesmo no mundo dos heróis de colante esses vigilantes fazem tanto bem assim? Para seu bel prazer, três caras “durões” que talvez devessem repensar como lidam com o crime.

Antes que eu seja alvo de críticas dizendo os métodos deles são “a única solução” e a situação dentro das HQs assim o exige, permita me uma réplica prévia: esse artigo não trata de como os roteiristas tratam a situação, mas sim de como ela transcorreria se as consequências desses métodos fossem levadas a sério. E antes que venha a brigada do “bandido bom é bandido morto” e “a polícia tem que ser mais dura com o crime”, ressalto que nossa polícia já é uma das mais duras do mundo. Obrigado.

Rorschach (Watchmen)

Comecemos pelo último vigilante ativo em Watchmen, o caso mais claro do problema mental desses caras, ok? Rorschach pode parecer bem intencionado em sua política de “piedade zero” com o crime, bem definida em uma fala brutal e simples: “Homens vão para a cadeia, cães vão pro abate”. Só que… dá pra confiar em alguém como o “bom” e velho Walter Kovacs?

Rorschach dispensa violência como o quarto Doutor dispensava jujubas – isso pode servir para punir os criminosos, mas não é exatamente uma política inteligente quando executada por um homem que é incapaz de diferenciar um criminoso perigoso de um lunático inofensivo. Fato demonstrado por ele ter matado o Capitão Carnificina - um masoquista inofensivo que importunava “vigilantes” por gostar de apanhar. E ao mesmo tempo, ele defende fervorosamente um psicopata, estuprador e assassino como o Comediante. Hipocrisia, será?

Não apenas isso, mas Kovacs não é capaz de se encarar no espelho e notar sua própria hipocrisia. “Porque sobram tão poucos de nós ativos, saudáveis e sem problemas de personalidade”, ele diz – e ignora que ele é a ultima pessoa em Watchmen que poderia ser definida como saudável ou sem problemas de personalidade. Ao menos Rorschach tem a decência de reservar a pena capital para aqueles criminosos que matam – mas julgando pelo incidente acima, dá pra confiar nas investigações dele?

Método de investigação: torturar qualquer um que possater o minimo de ideia do que está rolando. super eficiente.

E vale lembrar que a forma peculiar da criminalidade pré proibição do vigilantismo em Watchmen se dava como resultado desses “heróis mascarados” como Rorschach. O último resquício de uma era que se acabou, Kovacs ainda age como se investir tempo e dinheiro – que ele obviamente precisa para outras coisas, vendo que ele é um mendigo - para prender ladrões de bolsa, gangbangers e pequenos traficantes é um bom plano.

Como resultado disso, temos um punhado de criminosos aleijados, um punhado de inocentes igualmente aleijados, confundidos pelo nosso “herói” com criminosos – e vale lembrar que a visão absolutista dele vê praticamente todo mundo como digno de punição – para que alguns desses criminosos pudesse ser levado a justiça; o que é meio difícil quando as ações dele estragam todo o processo da polícia.

No final das contas, a única ação realmente construtiva do Rorschach foi desvendar o plano do Ozymandias – fora isso, os resultados maiores das ações dele são policiais feridos, suspeitos aleijados e contas imensas para a saúde pública. Kovacs pode não ter sido responsável pelo crime que o jogou na prisão – mas certamente merecia estar lá. O cara ateou fogo em um policial, só para começar. O que tens a dizer em sua defesa, Rorschach?

Isso… Isso não é nem uma palavra…
 
 
 

Frank Castle/Justiceiro (Marvel)


Mas Kovacs é fichinha perto do estrago causado por Frank Castle, o justiceiro – ou melhor, o punidor, já que o nome dele em português definitivamente não se aplica. Já demonstrando um pensamento super racional, Frank Castle é o incrível homem que após perder a família no fogo cruzado entre dois grupos de mafiosos, decide matar todo o crime. Antes de eu entrar em detalhes de como esse plano já deu muita merda e como ele não pode dar certo, quero levantar um pequeno ponto aqui: muitos dos criminosos que Castle executa a torto e a direito tem eles também família e filhos – que ou vão ficar desamparados, ou vão correr atrás de vingança.


Não só isso, mas Castle reserva uma única pena para os criminosos: a morte. Seu absolutismo moral vai a ponto de cogitar suicídio por ter matado um inocente sem querer. Castle já matou policiais por “não fazerem o seu dever” em sua visão – um incidente notável disso foi a morte do Stilt-man durante a Guerra Civil da Marvel. Reformado e fora do crime havia anos, o ex-super vilão estava trabalhando junto à polícia para proteger um pedófilo na mira da máfia. Dito molestador era testemunha em uma investigação de um círculo de prostituição infantil. O que Castle fez? Matou os dois, executando um homem que já havia pago por seus crimes e estava tentando se reformar, e eliminando uma testemunha importante de um crime maiorBelo trabalho, Frank… (isso está em Punisher War Journal #3, para quem quiser verificar a burrada).

Nada do que ele faz é por “justiça” – ou ao menos assim é nas mãos do escritor mais consistente do anti-herói (que pra mim é um vilão, fala sério), Garth Ennis. Alguns tentam fazer ele parecer um bom homem, mas… dá pra chamar de uma pessoa boa alguém que já matou 68 pessoas em uma noite? E que já usou de armas nucleares contra criminosos comuns? Ressalto que ele surgiu não como um herói, mas um vilão menor na revista do Homem-Aranha.

E antes ele se restringisse a essas cagadas “quando as coisas dão errado”, mas não somente ele ativamente vai atrás de criminosos para matar, mas estes nem precisam estar cometendo algum crime para entrarem na hit-list do “Justiceiro” – após o assassinato do Stilt-man, não contente em matar o cara quando ele estava tentando agir dentro da lei, Castle invadiu o funeral dele, atacando todo mundo que lá estava – resultando em queimaduras de segundo grau e intoxicações devido as bombas de fumaça. Boa parte dos convidados haviam largado o crime, alguns estavam sob escolta policial, recebendo indulto para ir ao funeral do antigo amigo - E alguns eram heróis, como o Homem-Aranha, por exemplo.

O que resultou numa merecida surra.

Uma das ações dele até resultou em problemas posteriores para outro herói: o cadáver do Halloween, um vilão menor que estava trabalhando junto a S.H.I.E.L.D durante a Guerra Civil, serviu como um dos hospedeiros do diabo nos quadrinhos do Motoqueiro Fantasma. No mesmo evento, ele ainda atrapalhou a resistência (a qual ele quis se juntar) ao executar dois vilões menores que tentaram se unir ao grupo anti-registro em troca de leniência nas penas quando a guerra acabasse.

E isso tudo nem começa a cobrir as atrocidades e cagadas do caveirudo. Com um kill count total na casa dos milhares (ao menos quatro mil mortes), é de surpreender que a Marvel ainda trate Castle como um “anti-herói” quando o Flagelo do Submundo, outro matador de criminosos, é tratado como um monstro e não chega a ter 50 mortes confirmadas… Sim, Castle pode ter destruído círculos de prostituição, como ocorreu no arco “The Slavers”, da série Punisher MAX – mas a quantidade de mortes nas suas mãos, e o número de testemunhas para outros crimes que ele executou por “terem culpa” lhe dão um saldo negativo, no final das contas.

Ironicamente, isso é melhor que o normal do Justiceiro.
 
 

Batman (DC)


Ah, Batman… um dos mais velhos vigilantes das HQs, o supremo protetor de Gotham, o cruzado encapuzado, o cavaleiro das trevas – e o maior desperdício de recursos dentro do universo DC. Não me levem a mal: eu adoro o Batman como personagem, mas quando se olha a cena maior em Gotham, ele é claramente um problema.

 

Assim como Rorschach e o Justiceiro, o problema do Batman começa na metodologia e na visão de mundo: Bruce Wayne pensa que pode resolver o problema da criminalidade meramente socando o crime na cara, sem lidar com as causas. É claro que quando alguém como o Duas Caras dá a cara a tapa, ou o Coringa arma mais um plano maluco, o método do Batman resolve. Mas quando se trata do quadro de desigualdade e criminalidade intensa de Gotham… o Bat-método é uma desgraça.


Wayne gasta bilhões em bugingangas contra o crime, enquanto ignora a miríade de problemas sociais que cercam Gotham City. “Mas espera, e a fundação Thomas e Martha Wayne”, você pergunta… Pois então… Obviamente que a Waynetech não pode gastar bilhões em “Batman” e “Liga da Justiça” – isso iria escancarar ao mundo que Bruce Wayne é o Batman, ou ao menos que Bruce Wayne financia o Batman, não? Afinal, não dá pra esconder o desenvolvimento de algo como o satélite da Liga da Justiça…

E curiosamente, toda vez que essa fundação é abordada nas histórias, ela sofre de falta de recursos, embora seu orçamento seja multi milionário, porque será? Teria algo a ver com lavagem de dinheiro? Só especulando aqui, mas acho que os “programas sociais” de Bruce Wayne são apenas o disfarce pros gastos do Batman. Enquanto isso, as crianças que seriam beneficiadas pela fundação Thomas e Martha Wayne seguem largadas a própria sorte – Dark Knight Rises tratou da falta de fundos da ONG como resultado da quase falência da Waynetech, mas nos quadrinhos e séries animadas, mesmo com a empresa “no topo”, a fundação sempre está sem dinheiro. Para custear a cruzada de um homem só contra o crime do Bruce, é claro.

Robo-batmen: um futuro possívelpara Gotham

O resultado desse investimento milionário? Da mesma maneira que os criminosos de Metropolis (muito menos numerosos, por sinal – Metropolis tem mais super criminosos, mas menos mafiosos e traficantes, julgando pelo que nos é mostrado) se armam para lidar com o Super Homem, o crime em Gotham se equipa para lidar com a ameaça do Batman, muito maior que o orçamento e treinamento da polícia permite lidar. No caso do Super-homem, não há como o homem de aço igualar as coisas – Wayne não oferece os seus recursos consideráveis, embora possa fazê-lo, porque? Uma hora o Batman vai morrer – seja pela idade, seja um erro cometido pelo morcegão, seja um vilão de sorte – e o Gotham vai pagar o preço dessa corrida armamentista entre Wayne e o “crime”.

Irmão Olho: a ditadura da máquina,engendrada pelo Batman.

Não que ele não tenha “soluções a longo prazo” – mas nenhuma delas é benéfica para a sociedade, até porque a meta dele não é bem fazer o bem, sabe… Temos o cenário apresentado no Reino do Amanhã, onde a segurança de Gotham é preservada por um pelotão de robôs Batman, que punem rigorosamente todo e qualquer crime; O estado policial grotesco e ineficiente de Dark Knight Returns, que só é “resolvido” através do retorno do Batman e seu método de “socar o crime na cara”; o também autoritário estado de Dark Knight Rises, onde crimes são punidos sem julgamento e sem direito a defesa, sob uma lei baseada em uma farsa; e o cenário pior, onde a “justiça” mundial é preservada pelos O.M.A.C.s sob comando do satélite Irmão Olho – talvez a coisa que mais deponha contra as boas intenções do Batman.

Fascismo para combater fascismo: The DarkKnight Returns resumido por David Willis

 

“Ah, mas e a Bat-Família? Os Robins, a Batgirl, etc? Eles não fazem diferença?” Fazem, até que fazem sim – mas ainda assim o morcego não é uma boa influência, e todos os resultados positivos destes vieram de sair de perto do Batman: Dick Grayson esteve perto de resolver os problemas sociais de Blüdhaven ao atacar as causas e ajudar os jovens a sair de uma vida de risco, como Asa Noturna. Barbara Gordon teve um impacto imenso no crime em Gotham como Oráculo ao monitorar os problemas na raiz, e tanto Jason Todd quando Tim Drake parece ter mais resultado solo do que tinham ao lado do Batman.

Ao menos ele não mata, mas aí temos um outro problema que é ele não deixar que matem ou morram na frente dele… dá pra entender ele achar que um Victor Fries ou um Basil Karlo tem chance de recuperação, ou ele querer salvar Harvey Dent (um amigo pessoal, e pelo qual Wayne gastou fortunas… curioso como ele não move um centavo pra ajudar Fries, que é muito menos perigoso que Dent). O que pode ser questionado é ele impedir que a justiça execute um criminoso irrecuperável como Victor Zsasz, ou o Coringa – ou pior, ativamente salvar a vida do Coringa quando este iria cair para sua morte(ao final de “Death of the Family”, ação que lhe custou a confiança da “bat-família”). E tem um grande debate sobre a eticidade de matar o Coringa.

Mas sua fúria não é homicida, e se viroucontra o crime. Fora isso, são bem parecidos.

O problema maior do Batman é que ele parece carecer de empatia – mesmo suas relações com a “Bat-família” são meramente funcionais, sem dar qualquer importância até que um deles morra ou seja aleijado para gerar drama. Wayne nunca demonstrou se importar por Jason Todd até que ele morreu – e tão pouco se importava com os problemas de Barbara Gordon até ela ser aleijada pelo Coringa. (E depois disso se importou tão pouco que não ajudou ela a voltar a andar depois de arranjar como regenerar sua espinha quando Bane a quebrou…). Não a toa Christian Bale foi escolhido para o papel do Bruce Wayne: ele praticamente é o Patrick Bateman, pombas morcegos!

Não que ele seja o único assim: Oliver Quinn, o Arqueiro Verde, era outro que achava que o problema do crime se resolvia com “esse que é irmão desse”, e só passou a olhar para as causas quando perdeu sua fortuna. Depois de minguar na pobreza, Quinn se dedicou a resolver o dilema da desigualdade social – e basta olhar para a diferença entre Star City e Gotham pré novo 52 para ver qual das duas estratégias dá mais resultado. Tendo dito tudo isso… eu ainda gosto do Batman – mas no contexto geral, ele é um dos maiores problemas de Gotham. Seus métodos podem resolver o problema pontual, mas no longo prazo não apenas nada fazem para lidar com as causas, como também agravam a ameaça apresentada pelo crime.

Encerro com a equipe do After Hours comentando porque o Batman é terrível para Gotham.

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